
Dias cinzentos se misturam com a dor daquelas almas que vagueiam em solidão por entre as ruas desta vida.
Tanta tristeza em suas faces, sinto o seu arrependimento vindo tão profundamente de seus corações. Eu sei que os seus olhos se abriram para a realidade, finalmente deixaram de viver nas suas fantasias.
Óh almas perdidas, que choram em silêncio e me pedem por um abraço de conforto, por umas palavras meigas, por um ombro amigo...
Como tais almas já fizeram parte da minha vida, da minha felicidade e da minha razão de viver. Como eu já derramei tanto sangue e fiz tanto só por as ver sorrir.
Eu era o porto de abrigo, aquela que sorriu e chorou a seu lado, que por mais sofrida estivesse iria sempre limpar as suas lágrimas.
Óh! Como eu era ingénua...
Apesar dos tormentos, dos sacrifícios, da amizade, do amor, da dedicação.. Mesmo eu tendo ouvido todas as suas lamurias para com a vida, mesmo tendo contado histórias com ternura, mesmo eu tendo feito de tudo...o que ganhei em troca?
Almas...óh almas...que me procuravam como porto de abrigo e ignoravam a minha existência, apenas queriam ter alguém que lhes segurasse a mão e lhes puxasse para cima, alguém a quem chamam porto de abrigo ou como algo seguro que estará sempre a sorrir e a abrir os braços. Não queriam saber nem fazer por mim o que fiz por elas... Viraram-me as costas e seguiram em frente. Sentiram que eu já não era precisa para porto de abrigo. Partiram-me o coração, usaram-me e pisaram-me até partirem-me completamente a minha vontade de viver. Sem remorsos, sem amor, sem arrependimentos...Deixaram-me a sangrar no chão, deixaram-me no passado.
Eu poderia esquecer a mágoa e todo o sofrimento que me atormentou durante tanto tempo, mas minha dor ultrapassou os limites e lentamente se transformou em raiva e transtorno. Eu não serei o vosso porto de abrigo, nunca mais...e eu sei neste momento que vocês, almas, estão a implorar mudamente por um conforto meu, por um pedido de desculpa, pelo meu abrigo por já não terem ninguém.
Mas o meu maior prazer será ver este circo que é a vida, queimar-vos lenta e muito dolorosamente.